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Dia da Mulher

Campus Inconfidentes realiza Sessão Cívica em homenagem ao Dia Internacional da Mulher

Na manhã do dia 8 de março, o Instituto Federal do Sul de Minas - Campus Inconfidentes realizou uma Sessão Cívica em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, com a participação de alunos e servidores.

A sessão foi aberta com o Hino Nacional Brasileiro e o hasteamento das bandeiras do Brasil, Minas Gerais e Inconfidentes. Em seguida, a professora Fátima Saionara e a servidora Sheila Guidi Pistelli leram textos, de autoria própria, sobre a data comemorativa. O aluno do curso Técnico em Informática, Thales Zia, fez uma apresentação musical e os alunos do curso de Licenciatura em Educação do Campo fizeram uma dinâmica com todos os presentes.

Após a sessão, foi servido um café especial para as servidoras, com sorteio de brindes.

Texto na íntegra de autoria da professora Saionara Leandro, lido durante a Sessão Cívica:

"Dia internacional da Mulher:

Hoje é dia de luta. Não estou aqui para ler poemas, poesias ou recitar trechos sonoros sobre a mulher... (apesar de ser apaixonada por tudo que a poesia provoca em meu íntimo). Tampouco se trata de presentear as mulheres com rosas como simbologia de sua candura, delicadeza e perfume (apesar de ser encantada pela beleza das rosas).

Hoje é dia de reviver as lutas que marcaram e marcam essa data. Hoje é dia de ler manifestos, de se conscientizar e de fazer valer as ações das mulheres que, desde o final do século XIX, lutaram e lutam contra os estigmas binários e perversos encrustados em nossa sociedade.

Hoje é dia de lutar contra as amarras que colocam as mulheres no polo oposto ao dos homens. E nessa oposição, elas ganham “vida” nos dados numéricos da carnificina da violência doméstica e do feminicídio. 

É dia de lutar contra os estigmas que crivam os corpos das mulheres de significados igualmente perversos e que os expõem na vitrine social. Esses estigmas as tornam objeto sexual e vendem os seus corpos em campanhas publicitárias e televisivas. Desse modo, as transformam em produtos para satisfazer à demanda do mercado sexista e machista.

Não se valorizam as suas qualidades, tampouco as suas funções, pois as mulheres continuam ocupando um patamar inferior ao homem no mercado de trabalho. São desvalorizadas quando exercem as mesmas atividades e ganham salários mais baixos que os pagos aos homens. Valores estes definidos pelo machismo que se encontra em cada canto e recanto dessa sociedade que se diz igualitária.

Hoje é dia de lutar contra o machismo silencioso, sorrateiro e perigoso que está enraizado em nossas ações, em nosso olhares, em nossos gestos... Em nosso IF?

Hoje é dia de lutar contra o machismo barulhento que expele a sua verborreia asquerosa ditando regras e impondo às mulheres os papéis de doméstica, mãe, esposa, doce, cândida, bela, recatada e do lar...

Hoje é dia de lutar contra o machismo presente na fala do ilustríssimo senhor presidente da república quando ao afirmar, no dia 8 de março de 2017, que tem: “absoluta convicção, por formação familiar e por estar ao lado de – sua esposa – Marcela, do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher".

Para ele, a astúcia das mulheres se dá quando "além de cuidar dos afazeres domésticos" e serem as responsáveis pela educação dos filhos, ganham "cada vez mais espaço" no mercado de trabalho. Precisamos lutar contra a imagem dessa mulher abajur, aprisionada ao lar e destinada a dar a luz.

Precisamos lutar, também, contra essa ideia de “super-mulher” destinada às mil e uma atividades e responsabilidades, sobretudo, domésticas. Atividades estas que para os homens não representam a sua masculinidade e não se cola à sua identidade. Aliás, é útil ao seu bem estar. Precisamos estilhaçar esses padrões.

Hoje, também é dia de lutar contra o machismo que veste saia e que, ao convidar alguém para um evento no dia Internacional da Mulher, lhe impõe padrões de como se vestir: “Aí você vem assim, bonitinha, de vestido.” Ora, fiquei a me perguntar, em que medida esse crivo é direcionado ao corpo masculino? E aqui estou, de vestido, seguindo os padrões socialmente exigidos, mas não para exaltá-los, senão para convocar cada uma de nós, mulheres, à luta.

À luta contra essa raiz podre do machismo que insiste em germinar em terrenos inférteis. Contra esse vento que sopra para todos os lados. O machismo está em toda parte. Enraizado. Reproduzindo seus podres frutos e alimentando, com eles, tradições e poderes apodrecidos.

O machismo veste muitas cores, muitas modas, muitos nomes. Ele é a nossa crítica à saia curta e ao decote, é a nossa repulsa à mulher da vida e a concomitante glorificação dos conceitos: “menina-santa”, “moça-direita” e “mulher-casada”. É a crucificação da mulher independente, da mãe solteira, da amante, da mulher que não quer ser mãe... é, também, a proibição da ordenação da mulher na religião católica. É árvore de muitos galhos que cai sobre nossos ombros como amarras.

Precisamos lutar contra esse machismo que violenta e assassina a mulher lésbica por não permitir o seu desejo subversivo e contra natural.

Precisamos lutar contra esse machismo que esquarteja a mulher trans por não suportar conviver com a rebeldia de seu corpo e com a comprovação de que ser mulher está para além do sexo biológico.

Precisamos lutar contra esse machismo que ridiculariza as mulheres nordestinas e nortistas, que as colocam em um estágio inferior a todos os padrões exigidos.

Precisamos lutar contra esse machismo que empunha com todas as suas forças os grilhões presos ao corpo da mulher negra, sonegando o seu reconhecimento. Que supersexualiza os seus corpos e desvaloriza o seu intelecto e sua força de trabalho. Esse machismo estigmatiza essas mulheres que foram punidas, mutiladas, estupradas e açoitadas ao longo dos anos de escravidão. 

Precisamos lutar contra esse machismo que viola o sexo feminino fazendo escorrer sangue de suas entranhas e em seguida culpabiliza as mulheres por sua desgraça.

Precisamos lutar contra essa imagem do puritanismo, da subserviência e do instinto feminino como se estes fossem membros pendurados ao corpo das mulheres desde o seu nascimento. Que possamos dizer não a essa imagem de mulher imaculada fruto da tradição cristã e reverenciada pelo mundo moderno capitalista.  

Precisamos lutar contra esse machismo multifacetado que dita o nosso estar no mundo, que me diz que rosa é cor de menina e azul é cor de menino, como se essas cores corressem em nosso sangue desde a nossa vida uterina. Esse machismo que cobra e pune não apenas as mulheres, mas produz bullyings aos meninos que fogem à regra monocromática preestabelecida.

Precisamos, antes de tudo, lutar contra essa visão naturalista que nos diz que ser mulher é definido pelo nosso sexo biológico, quando, na verdade, a mulher se define por cobranças sociais instituintes de padrões massacrantes.

Que possamos, de forma coletiva, construir um mundo melhor. Que todos nós, homens e mulheres, tenhamos a responsabilidade de educar as nossas filhas e os nossos filhos pra abrir as portas do reconhecimento, da justiça e da igualdade de direitos para os sujeitos de todas as ordens, inclusive as mulheres: negras, brancas, lésbicas, trans...

Que, como educadoras e educadores, tenhamos o compromisso de exterminar o machismo onde quer que ele esteja e em qualquer forma que possa se apresentar. Não tenhamos medo de desmascará-lo quando ele estiver travestido ou pintado. Não fechemos os olhos quando ele cintilar à nossa frente. Não calemos as nossas bocas quando ele se fizer presente.

Feliz dia 08 de março de 2018."

Saionara Leandro

Profa. de Filosofia, Sociologia e História

 

Publicado em 08/03/2018

Por Paula Doná

Ascom - Assessoria de Comunicação